terça-feira, julho 23, 2013

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

o problema do livro é que dá como certo, em várias ocasiões - isto para não dizer que é esse o seu tema - a influência directa do De Rerum Natura na mudança de pensamento da Idade Média para a Idade Moderna. o manuscrito por si só, e por melhor que seja, não pode ter mudado todo o século XV. Lembremos que a Idade Média já há muito tempo não é vista como "período das trevas". O exemplo mais paradigmático é também literal: o vidro, ainda que não tão aperfeiçoado como hoje, já existia e permitia que os interiores fossem iluminados pela luz natural durante mais tempo. Desde o século XIII as relações feudais vinham a mudar e renasceu o mundo urbano que desde a Antiguidade tinha ficado esquecido. Territórios como Portugal, que não queriam pagar mais caro por certas mercadorias que lhe chegavam através de intermediários, empreenderam as viagens transcontinentais e transoceânicas necessárias para chegar de outra forma aos mesmos domínios. Estas viagens deitaram por terra as ideias da Idade Média de um mundo plano e no centro do universo em torno do qual tudo girava. No Renascimento, muitas coisas de facto mudaram, mas outras não. 

Ora, primeiro, o autor coloca no "mesmo saco" as diferentes fases da Idade Média. O facto do De Rerum Natura ter sido escrito numa época de primazia dos livros, e de depois se ter seguido - é verdade - um período em que a leitura e a escrita não foi fomentada (período esse do século V até ao século XV, mais ou menos), não faz com que toda a Idade Média tenho sido uma época de desconhecimento da leitura e da escrita. Os livros vindos da Antiguidade continuavam a existir, em mosteiros e em certas cortes como a de Carlos Magno. Mais ainda: a escrita foi impulsionada, principalmente a de temática religiosa, mas não só. Então e as trovas, os romances de cavalaria, os poemas de autores como Petrarca ou Dante (que foram justamente influenciados pelos textos clássicos)? Segundo: o autor dá a entender que o De Rerum Natura veio dar a conhecer a nova ideia de que não existia vida para além da morte, que o hedonismo era a via, que Deus não existia, e o objectivo da vida era o prazer e não o castigo, a dor. Se o manuscrito tivesse de facto sido tão importante, o Cristianismo tinha morrido no Renascimento e não foi isso que aconteceu. O que aconteceu, isso sim, foi uma coexistência entre os princípios modernos e a ideia do divino que só sofre um verdadeiro abalo com a Revolução Francesa e o Iluminismo. Por outro lado, se o mesmo manuscrito tivesse mudado a face do mundo e aberto as portas ao Renascimento, o que se observava era que a partir daí toda a gente viveria a dar largas à sua imaginação no que concerne ao prazer. De facto, tanto houve uma explosão de sensualismo (com os nus na arte, com o romance como tipologia), como o seu contrário (a maior repressão imposta pela Contra Reforma, por exemplo, ainda que mais tarde). O que se observa, neste livro como em muitas outras coisas, é a ideia errada que após a queda de Roma e as invasões bárbaras, a Europa caiu na mais profunda escuridão, que o mundo Antigo foi apagado da memória, e que por consequência, poetas, escultores e pintores deixaram de saber escrever, esculpir e pintar. nada mais errado: as invasões trouxeram de facto a destruição de muito do existente, mas não apagaram a capacidade de desenhar, de esculpir, de escrever. Os escultores da Idade Média esculpiam assim - sem respeito pelas proporções - não porque não soubessem esculpir, mas porque retratar com naturalismo não era o seu propósito.  

a parte boa do livro é aquela em que o autor, levado pela narrativa, descreve o tempo em que Poggio trabalhou para o Papa Baldassare Cossa de forma muito natural, sem necessitar - como acontece em outras partes - de sublinhar a relação entre o De Rerum Natura e o pensamento renascentista, não conseguindo de facto concretizar essa ideia.

4 Comments:

Anonymous pmramires said...

Portanto, há gente a escrever sobre a Idade Média sem ter lido Tatarkiewicz e visto, por exemplo, Andrei Rublev. Estamos sempre a aprender.

23/7/13 9:49 da manhã  
Blogger beluga said...

Caro Pedro:
Para além do George Duby (O tempo das catedrais), era um outro sobre estética medieval, mas depois digo com mais certeza.

24/7/13 12:05 da manhã  
Blogger beluga said...

outro livro que tem uma boa introdução acerca da estética medieval (desmistificando a passagem da Idade Média para o Renascimento) é a "Arte do Ocidente" de Henri Focillon.

Ou "A Estética da Idade Média" de Fumagalli Brocchieri, da Editorial Estampa (esta colecção é fácil de arranjar e relativamente em conta)

24/7/13 11:30 da tarde  
Anonymous pmramires said...

Obrigado.
Os três existem na biblioteca da Póvoa e já estão, aliás, aqui, na minha mesa.
No meu trabalho de estética medieval, os dois livros de fundo que usei foram:
- Tatarkiewicz, W. (1970). History of Aesthetics (Vols. II - Medieval Aesthetics) -(R. M.
Montegomery, Trad.) Polish Scientific Publishers.
- Eco, U. (1989). Arte e Beleza na Estética Medieval. (A. Guerreiro, Trad.) Editorial
Presença.

Mas estudava a estética de autores medievais e não 'a estética medieval'.

25/7/13 12:14 da tarde  

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