quinta-feira, dezembro 15, 2011

- o carteiro -

pela dignificação da coisa
talvez sejam os finais que me deixem com vontade de avaliações, contagens e listas. mas ao ler esta reportagem, fiquei a pensar que seria necessário uma reviravolta, seria necessário pensar de novo esta coisa toda da arte. vocês sabem que não sou nenhuma especialista, escrevo apenas aquilo que acho e apesar de, no geral, aquilo que as pessoas acham ter pouco valor - porque a maior parte de nós não acha nada a maior parte do tempo e isso está muito certo. se estivéssemos sempre a achar coisas acerca de coisas teríamos uma consciência tão grande da realidade que mais nos valia fugir - retomando: apesar de aquilo que as pessoas acham ter pouco valor, eu acho que este é o espaço onde posso achar coisas e por isso acho aqui.

quer isto dizer que não obstante as redes sociais - de que não irei falar - a arte continua a achar quase nada acerca daquilo que representa. os paradigmas mudaram, é óbvio. e todas as tentativas para retomar os antigos saíram goradas. veja-se o caso dos "neos": o neo-gótico, o neoclássico, os Viollet-le-Duc... parecem-nos sempre sucedâneos de sangacho quando os originais foram atum fresquinho! não se pode voltar atrás e nem faria sentido fazer um "neo" qualquer porque hoje a arte já não se define por paradigmas, mas por pessoas: cada uma com a sua ideia. tenho uma empatia - que não é só minha, é de toda a gente - com a arte figurativa, com a tela no seu cavalete e com o mármore polido, mas isso são as ideias que estão enraizadas, que provavelmente nunca vão mudar, mas não ofuscam a aceitação de outras coisas.

durante muito tempo, o artista era um instrumento da arte: ele fazia-a, mas não a domava, na medida em que os temas não eram escolha sua, voluntária, eram impostas pelo mercado. depois, o artista começou a servir-se da arte para retratar os temas que preferia e que, de uma maneira ou de outra, acabaram por falar dele (numa antevisão daquilo que são estes tempos narcísicos). e o mercado, que adorava espíritos rebeldes (a burguesia sempre gostou do excêntrico por não ter, por formação, gosto), pagou para ver os outros nas suas paredes (isto mantendo a ideia, ainda, que um quadrinho estava numa paredinha). mas agora... não há burguesia, nem mercado. a ideia de mercado de arte está falida já que cada um de nós pode comprar uma obra de arte. e porquê? porque qualquer coisa, qualquer ato se tornou uma obra de arte. Aliás, na entrevista de Anselm Kiefer podemos ler: "Kiefer, 66, misses the days of the 70s and 80s when art collectors such as Donald Fisher – founder of the Gap clothing stores – took a year to decide whether they wanted to buy a work or not." a parede onde antes pendurávamos o quadro é agora a superfície que estabelece a analogia com este tempo. se antes tínhamos espelho e depois lâmpada (o artista enquanto lâmpada que refletia o que desejava), chegamos agora à bola: é estéril. não tem faces. é redonda. é oca. por onde vai, volta. rola sobre si própria.

quanto a outras afirmações de Kiefer, como aquelas que dão Hirst como o anti-artista, não me chegam. porque Kiefer parabeniza a atitude de Hirst face à sua destruição da lógica do mercado das leiloeiras. mas a partir de quando é que exagerar na anti-arte pode transformar-se no seu oposto; ou seja, em arte, tendo em conta que uma coisa não é só pela sua afirmação ou pela sua negação? Quem define o momento em que a anti-arte passa a ser arte? Cada um de nós? Em termos relativos, ou caseiros, sim. Mas se tudo pode ser arte, o que é que a arte vai retratar? A própria arte? (Aliás, nessa parte (6º parágrafo) Kiefer sai-se tão mal que mais lhe valia estar calado. dá a entender que mais do que arte, Hirst fez dinheiro!). e não, não acredito que uma pessoa má possa dar um bom artista. uma coisa não é independente da outra. não podemos gostar da arte de um homem que deixa um cão morrer de fome como afirmação artística. foi o exemplo que me surgiu, mas é ilustrativo. se um artista quer ter visibilidade também tem de ter responsabilidade.

houve um tempo, em que a arte era tão explícita, que era mesmo ginecológica ou literal. mas agora, é simplesmente lateral: está a passar ao lado do seu próprio tempo.

5 Comments:

Blogger alma said...

Gostei da sua análise !!
Não sei se a Arte está a passar ao lado ou se é só o reflexo num espelho convexo da situação actual...
Os comerciantes (saacthi)e os anti-(dirst)e até os possiveis artistas tentam todos escapar ao futuro ...

este Kiepfer não me sensibilizou é um alemão a querer ganhar o seu ...
exijo mais de um artista
mil vezes um chinês como o ai weiwei e as suas mulheres nuas com a foto dele como parra !!!

16/12/11 3:24 da tarde  
Blogger alma said...

saatchi (smile)
nem sei se ele merece esta adenda ...

16/12/11 7:08 da tarde  
Blogger AM said...

o Viollet-le-Duc foi (e se calhar ainda é) grande
estou à espera de um livro sobre a muito ignorada e incompreendida arquitectura do séc. XIX
pode ser que eu ainda o receba, leia, perceba e poste

(não concordo com essa relação entre boa pessoa e bom artista)

16/12/11 9:56 da tarde  
Blogger beluga said...

Olá Alma:
eu gostei e não gostei. comecei logo a pensar que não tinha assim tantas certezas. é verdade que a arte hoje está cada vez mais próxima do exibicionismo (da pessoa, da ideia ou da coisa), mas sei lá... depois fico a pensar que ainda sei muito pouco para ser tão contundente.

não gosto do Ai Weiwei. acho que ele também está lá para ganhar o seu dinheiro. o que está certo: a arte pelo amor da arte não é para os nossos tempos. mas gostaria de ver menos mercado e mais arte. mesmo quando os artistas trabalhavam para os seus mecenas, num cantinho de um palácio, a fazer retratos consoante o que era pedido (embelezando o feio...), me pareciam mais dignos do que agora em que são livres e continuam a bajular um mercado de que não dependem diretamente. talvez seja uma ideia muito romântica que tenho de desconstruir.

e não... o saatchi não merecia a adenda!

Caro António:
o Viollet-le-duc fez aquilo que outros estão a fazer na sagrada família. que eu goste ou não não interessa, ele até pode ter sido o que de melhor aconteceu a Carcassone, mas não consigo ver como um arquiteto possa ter simulado uma visão que não era a do seu tempo, no seu tempo, alterando por consequência a anterior. era a mesma coisa que alguém um dia ter chegado à catedral de Santiago de Compostela, tivesse descoberto que originalmente o relevo do pórtico era pintado e simplesmente o tivesse apagado.

quanto aos artistas e as boas pessoas... isso já me deu volta à cabeça e olhe... o resultado é um desafio.

17/12/11 12:24 da manhã  
Blogger AM said...

o Violet fica para outras calendas

vamos ao desafio

17/12/11 11:26 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home