segunda-feira, novembro 28, 2011

- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou "descubra as diferenças". Em Espanha chamam-lhes "floreros" e na Flandres no século XVII era apelidados de "Flores, Frutos e Bouquets" (é aqui que surge a expressão still-leven que depois deu origem ao still-life. no entanto "leven" quer dizer "imóvel" e não "vida". ora isto limita a natureza-morta à representação de objetos inanimados, o que depois não vai contecer sempre. às vezes surge um caracol ou um gato junto do peixe... Em Espanha a expressão Floreros designava apenas estas naturezas-mortas com flores. para alimentos, objectos de cozinha, garrafas e taças o termo era "bodegón", mas hoje o "bodegón" engloba tudo. é preciso dizer que as naturezas-mortas estão mais presentes nos países protestantes do que nos países católicos, porque se coadunam com a exibição muito pontual de imagem religiosa. para além disso a imagem política, é suavizada após a Revolução francesa, mais de acordo com a nova classe em ascensão. quer isto dizer que as naturezas-mortas são mais típicas do norte da europa - à exceção de inglaterra e também de frança. diz-se até que foi Chardin que primeiro as pintou, mas estava a ler uma coisa sobre isso que diz que não foi um francês, mas sim um veneziano que pintou as primeiras naturezas-mortas. um veneziano! saiu-lhes o tiro pela culatra! face a tanta cena histórica e tanta santa e deusa, havia de ser um italiano a dedicar-se às flores!). E embora pareça incrível não são telas de jarras com flores para colocar em cima da televisão, não senhor. São naturezas-mortas e também não têm de ter um simbolismo embora estas duas jarras tenham, como poderemos ver nas flores. Há subjacente ao simbolismo daquilo que é retratado um conceito moral, ainda que não religioso. Ora esta coisa das naturezas-mortas, ainda por cima com flores, não era muito bem vista na escala académica dos críticos. Ao contrário das grandes cenas épicas, sacras ou mitológicas, a natureza-morta ficava no fim da escala já que exigia somente técnica e não criação. Mas, na minha opinião, havia nisto muito trabalho e muito intelecto, já que não eram pintadas flores de forma indiscriminada; eram escolhidas com um objetivo: as tulipas que vemos em abundância nas duas jarras eram a flor da loucura. eram tão raras e tão caras que as pessoas eram capazes de vender tudo, fazer uma loucura só para adquirirem uma. As rosas nunca poderiam ter sido pintadas naquela jarra com as tulipas pois as duas espécies florescem em alturas diferentes do ano. Outra coisinha: as flores que se encontram mais atrás e que são as mais altas, dificilmente teriam caules daquele comprimento, o que nos leva a crer que Brughel, que não devia estar disposto a cometer loucuras para arranjar esta ou aquela flor, tivesse feito as suas naturezas-mortas a partir da observação de estudos botânicos. Estes dois quadros são verdadeiras alegorias da morte e ressurreição de Cristo, bem um alerta para as vaidades passageiras deste mundo. Tal como estas flores, belas e garbosas também a nossa vida acabará e aquilo que somos murchará (nas mulheres costuma murchar antes de acabar: aquilo que antes estava em cima vai para baixo e aquilo que estava em baixo, para os lados). As flores, por quem muitos fizeram loucuras, morrem e o que fica é o espírito. Quando morrerem, o quadro ressuscita o espírito através da borboleta (do lado direito da pintura, em cima de uma flor), borboleta essa que é símbolo de Cristo ressuscitado. (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, lá dizia o Eclesiastes). Queria poder dizer-vos mais sobre isto, sobre as naturezas-mortas, mas ando a estudar coisas por mim. Para além disso a Literatura Comparada leva-me muito tempo embora me dê grande prazer. Posso dizer, tentando não me gabar, que este post me parece um dos mais interessantes do blog nos últimos tempos:
Jan Brughel-O novo
Jarra de porcelana com flores
c. de 1650


Jan Brughel-O novo
Jarra de porcelana com flores
c. 1675

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

gosto das naturezas-mortas a la Cezanne! pronto! já disse!

e das do meu pai!

29/11/11 11:37 da tarde  
Blogger beluga said...

as naturezas mortas do cézanne nem são muito más. quer dizer, são boas. mas a partir do momento que uma pessoa percebe o sentido das coisas, porque é que usam aquelas flores e não outras, parece que as naturezas são mais bonitas. de um momento para a frente - e não desmerecendo ou corro o risco de ficar uma cota com óculos que gosta de pré-rafaelitas e acredita em espíritos, vive com 12 gatos, é solteira e passeia um carrinho de compras vazio - a arte procurou só mudar o pensamento que tinha acerca das coisas e acho que se esqueceu que um dos seus propósitos, é fazer sentir.

14/12/11 9:42 da tarde  

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