quinta-feira, fevereiro 07, 2008

- o carteiro -

"upa upa, puxadote", que é como quem diz "isto sem imagens, a gente nem lê", "vá, façam o esforço. até nem está muito mal", "mas é chatinho?", "um bocadinho", "ah, então não...", "é sobre o significado das formas geométricas", "cabala? agora andas na cabala?", "não, são coisas importantes. é sobre o significado das formas geométricas", "ena, sou muito mais feliz agora!":

Já desde os pitagóricos, o número foi de importância superior uma vez que estes, grandes cultores da matemática, julgaram descobrir nos números o princípio, o arche que os primeiros filósofos acreditavam estar nos elementos naturais. Envolveram o número numa aura misteriosa e dotaram-no de um simbolismo próprio cujo acesso estava reservado aos iniciados. Nascia desta forma a ideia de usar a matemática para conduzir o sucesso arquitectónico. A relação entre a harmonia do número e da arquitectura permitiu empregar a primeira para dissecar, conceber e forjar a última.

Mais tarde, quer no sistema Ptolomeico das esferas planetárias e que antecedeu o sistema de Copérnico, quer na visão de Plotino no que diz respeito às esferas celestes, o número e neste caso, o círculo esteve sempre dotado de forte simbolismo. No primeiro caso, era o centro à volta do qual se movimentavam os planetas. Estes descreviam uma trajectória orientada por círculos que se deslocavam de forma articulada entre si. Na visão de Plotino, uma visão mais teológica, o Uno é o centro, o núcleo representado por um círculo, à volta do qual se ordenam as esferas celestes.

Há dois tipos de divisão espacial arquitectónica, do espaço no plano. Uma é o círculo e a outra é o cruzamento de ortogonais. As restantes formas como o hexágono (ou alvéolos) derivam, segundo alguns autores, das primeiras. As formas circulares, não permitem uma divisão muito nítida do espaço, não autorizam a criação de espaços autónomos. Por isso, o círculo é aplicado com mais frequência em edifícios com função “comunitária” como teatros, estádios e templos. Já as formas rectangulares são mais práticas em termos de divisão do espaço, tornando-se assim as predominantes na maioria dos edifícios de povos civilizados. Mas pensa-se que as plantas circulares foram anteriores às outras, como pode ser demonstrado pelas construções primitivas como as cúpulas, os cones e as habitações em dupla vertente (as cúpulas eram habitações primitivas sul americanas e africanas que resultavam do cruzamento de ramos em forma hemisférica. De certa forma, os igloos esquimós são aparentados das cúpulas. Os cones, das zonas tropicais ou subtropicais da Oceânia à Ásia e da África à América, surgiram do corte horizontal das cabanas em cúpula, e posterior colocação em cima, de uma cobertura. Estas construções foram sendo abandonadas em favor das formas rectangulares. As construções em dupla vertente eram aquilo que hoje vemos como telhados, mas que planificados resultam num rectângulo).

Outra explicação para utilização do círculo como forma delimitadora do espaço poderá ser o facto de desde sempre, os seres humanos se reunirem à volta de uma fogueira, em círculo. Como podemos constatar, o fogo e o sol são frequentemente associados à forma circular, fazendo assim parte já do nosso inconsciente colectivo. O círculo e a esfera, as formas perfeitas porque apesar de finitas, não têm fronteiras, foram sempre utilizadas como símbolo e metáfora da divindade, como no Ser de Parménides (para Parménides, o Ser era como uma esfera: iniciada, porque não nascia; eterna, porque não morria; completa porque nada lhe faltava para ser esfera e finita porque era possível ver os seus limites e porque se fosse infinita era indefinida, logo não existia.).
Desde os megalitos de Stonehenge e Avebury, os cromeleques de Almendres (Alentejo) até às construções funerárias ou baptismais da Idade Média, passando pelos círculos mágicos da magia branca e negra que evocavam espíritos, o círculo delimita um espaço sagrado (na magia branca são invocados espíritos diurnos, enquanto na magia negra são chamadas criaturas maléficas. Os demónios são chamados do interior do círculo, mas este funciona como protecção, como espaço sagrado onde as criaturas das trevas não podem entrar). Como são bastantes as teorias que se debruçam sobre o significado das formas, é natural que, a formas diferentes acabem por ser atribuídos os mesmos significados. É o caso do quadrado e do círculo. O quadrado é totalmente terreno e tem por base o número 4, número dos elementos naturais. Mas o círculo também foi utilizado como forma de representação dos 4 elementos (as interpretações são muito diferentes e variam de autor para autor. Era igualmente atribuído ao triângulo o poder de representar os elementos. Mas neste caso, o elemento Terra é representado por um círculo dividido em quatro por uma linha horizontal e outra vertical, numa alusão ao que será referido aquando a importância das cruzes para a arte cristã. Outros autores associam o círculo, não só aos quatro elementos, mas também aos pontos cardiais, aos quatro ventos, às quatro estações do ano, às quatro idades da vida, os quatro humores do corpo humano, e às quatro ciências do quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia).

Na Idade Média, e segundo miniaturas do século XIV, eram os anjos que colocavam em movimento a esfera dos astros fixos que por sua vez impulsionavam o movimento de todas as outras esferas. Esta ideia da esfera relacionada com o cosmos era comum na Idade Média, uma vez que já no século XIII era defendida a ideia de que à semelhança do mundo, o que era divino também era circular, mas movido pelo amor.

Jâmblico, (atribui-se-lhe o ter inflectido o puro intelectualismo numa decisiva orientação mágico-teúrgica. Escreveu o De Mysteriis que nos indica que as duas direcções se mantêm apesar de separadas e até opostas. Por um lado uma linha metafísica que em parte prolonga, em parte modifica e simplifica o sistema de Plotino; por outro, a via da salvação que ele propõe através da teugia.) escreveu que a suprema perfeição que era personificada pela divindade, o ser imortal, não podia ser forçada a actuar em favor de algo que era extremamente imperfeito, como o ser mortal. Pelo contrário; a divindade só podia ser induzida a actuar em favor dos símbolos e das fórmulas que ela mesmo tinha sugerido aos homens que conheciam os seus mistérios. Ela só podia agir quando invocados os cerimoniais próprios e em favor não do Homem, mas daquilo que representavam. Assim, os ritos e os símbolos eram o que fazia com que o Homem se pudesse aproximar correctamente dos deuses. Séculos mais tarde também Goethe refere a importância dos símbolos ao dizer que tudo o que está dentro (Ideia) está igualmente fora (Forma) (na verdade, esta ideia é uma inversão do platonismo tradicional em que o mundo das formas é apenas uma sombra da ideia).

2 Comments:

Blogger João Barbosa said...

nem cabala, nem macumba nem vudu... e mais um belo texto (mais uma corrida, mais uma viagem)

7/2/08 11:59 da manhã  
Blogger beluga said...

isto é matéria dada e escrita, não inventei do dia para a noite. ou da noite para o dia, neste caso.

8/2/08 12:42 da manhã  

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