segunda-feira, outubro 01, 2007

- o carteiro -

Caro AM:
Não poderei acrescentar muito mais ao que já foi escrito acerca da Capela das Onze Mil Virgens, mas uma vez que disse que sim, que escreveria, vou tentar fazer um post minimamente decente sobre a dita.

A certa altura do meu percurso, quando me deparei com uma imagem da Capela e visto que tinha de tomar uma decisão quanto a um tema a estudar, tomei como primeira opção (errada!) a Capela das Onze Mil Virgens. Tinha uma particularidade, pelo menos na fotografia, que as demais construções confinadas à denominação de arquitectura “estilo-chão” (Kubler), que ocupa o período arquitectónico entre o manuelino e o joanino não tinham. Não tivemos o percurso típico e italiano que nos impingem nos meios académicos de passagem do Renascimento para o Maneirismo e do Maneirismo para o Barroco. A Capela das Onze Mil Virgens não parecia (na fotografia), nem em “estilo-chão”, nem portuguesa. Parecia mesmo italiana!

A obra do referido António Rodrigues e que já tem qualquer coisa de arquitectura militar, com nave única e sem transepto, com abobada em cano na nave e aberturas laterais numa sucessão de arcos simples (serliana). O mais curioso é a existência de uma cúpula sobre o altar-mor que fica totalmente tapada pela altura da cobertura exterior da nave, dando a ver apenas o zimbório. É quase um retrocesso, uma vez que tinha tudo para ser uma belíssima capela – não deixa de ser -, mas acaba por sucumbir à modéstia nacional. Talvez por causa da importância do Tratado de Serlio para a arquitectura portuguesa dos século XVI, XVII e XVIII, bom como o de Palladio e o de Vignola. Este último foi, na minha opinião, o mais influente na arquitectura pós tridentina. É uma proposta totalmente oposta às do Tratado de Torralva, por exemplo e está mais próxima das Hallenkirchen, igrejas de uma limpidez quase ascética face ao jogo geométrico do Renascimento. Nas Onze Mil Virgens está presente o gosto italiano no material usado, a tradição nacional da arquitectura militar, a tradição internacional da tratadística e a tradição espanhola da simplicidade.

Destacava apenas três aspectos: António Rodrigues foi o autor de um tratado de arquitectura usado pelos alunos na disciplina de Arquitectura Militar; o tom claro da igreja pode ficar a dever-se ao despojamento decorativo e artifícios arquitectónicos, mas também de material (mármore rosa); não concordo com a afirmação/questão “será que foi na ambiente do fazer obra nova para a dignificação do rei, do reino, da sociedade urbana e burguesa saída da revolução de 1383, consolidada nos séculos que se seguiram através do progressivo alargamento das instituições do estado representadas na casa real sob controle administrativo centralizado?” Na minha opinião a figura do arquitecto surge após as primeiras notícias de Itália, de intercâmbio de ideias e mesmo no decorrer da actividade das guildas. Esta última afirmação dentro do parágrafo desmente a própria questão: se os arquitectos tivessem surgido para beneficiar uma burguesia que deveria estar sob a égide (em todos os aspectos) real, porque razão muitas destas construções são fora dos grandes centros?

3 Comments:

Blogger AM said...

mt obg, beluga

estava para aqui a preparar um comentário que se perdeu...

ora deixa lá ver se consigo recuperar o fio à meada...

por muito que eu goste (e gosto) do interior da capela, gosto ainda mais do exterior, dos volumes e da relação destes com a malha urbana, com a topografia, o território e a paisagem

sabe mais alguma coisa sobre as condições da encomenda, sobre o "cliente" e sobre os custos e os prazos...
e sobre a origem do mármore?
E sobre a "cerca" do convento? tenho procurado reconhece-la no "terreno", mas não está fácil

o interior é um pouco mais "estrangeiro", mas a relação urbana com a envolvente é muito portuguesa, em tudo semelhante à implantação dos conventos "periféricos" em Viana do Castelo conforme analisados pelo Paulo Varela Gomes, num livro sobre a cidade minhota

a comparação não será muito despropositada se pensarmos que à data da construção da capela Alcácer do sal não era nenhuma (e o Pedro Nunes que o diga) "parvónia"

sobre a "profissão" de arquitecto... provavelmente é e foi, o que sempre foi e é... não vou muito em "cortes epistemológicos" e em ciclos muito arrumadinhos nas gavetas da história... provavelmente existem menos diferenças entre um metre-arquitecto da idade média, e, sei lá, o Palladio, do que aquilo que estamos pré-dispostos a pensar

1/10/07 12:22 da tarde  
Blogger beluga said...

Caro AM:
ora vamos lá ver se me faço entender: eu não percebo nada de arquitectura. e não é falsa modéstia. é mesmo verdade. nem sequer conheço a capela "ao vivo e a cores", só por fotografias. desconheço a origem do mármore, mas estou a pensar na capela da Vista Alegre com um túmulo de Laprade que também utilizou mármore. Claro que era uma obra privada, mas a capela é igualmente airosa. cliente, custos, prazos (ai os prazos), acho que nem no inventário artístico nacional. acho que isso é informação perdida. tive de fazer um estudo sobre capelas regionais e nada de informações: para além do santo de devoção e daquilo que me era dado a observar, nenhuma certeza. nesse campo também me foi útil o Paulo varela Gomes (que citei pouco porque o havia uma pessoa envolvida na trabalho que tinha alguma rivalidade com ele). quanto ao momento de "concepção" do arquitecto confesso que embora não concorde com as gavetinhas dos séculos para isto e para aquilo, ajudam-me, tendo em conta que não sou da área e que como pode ver pelo Belogue, nem sequer me arrisco na arquitectura nem na escultura. (isso não quer dizer que perceba grande coisa de pintura!)

mas vou continuar a investigar, caro watson.

1/10/07 2:05 da tarde  
Blogger AM said...

elementar, cara beluga, elementar... (smile)

2/10/07 9:33 da tarde  

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