quinta-feira, setembro 27, 2007

- o carteiro -

Não coloco aqui a fotografia porque é demasiado chocante. No entanto não acho que a mesma fotografia colocada frente a um serviço de tratamento de doentes com doenças do comportamento alimentar, fosse servir de panaceia alienígena. Isto porque apesar de chocante a fotografia da nova campanha da marca de roupa Nolita da autoria de Olivero Toscano, não tem mais nenhuma intenção do que promover a própria marca com uma mensagem social tal como acontecia com a Benetton. Depois porque o objectivo esbarra na realidade: o que Toscani conta não é a doença em si, a história da anorexia (credo, parece nome de livro editado pela Difel!), mas antes a história daquela modelo uma vez que a mesma acabou por falar da sua experiência em entrevistas.
Não consta que as fotografias do conhecido fotógrafo em que víamos um doente com SIDA a morrer tenha impedido outros doentes de morrer e outras pessoas de contraí-la. Também não parece que o beijo entre o padre e a freira tenham impedido os abortos em conventos, nem acabado com o celibato da religião católica. Portanto, ao contar a história da modelo Toscani cai na tentação de hoje que consiste em compreender ou dar a entender uma situação particularizando-a. O exemplo dessa modelo não é a vida de cada doente e contá-lo não irá fazer nada por nenhum doente, assim como o padre e a freira não fizeram pelos padres e pelas freiras, nem o homem a morrer com SIDA fez pelos homens e mulheres que morreram com SIDA.

Se havia um tempo em que a ousadia de Toscani era tida como originalidade, hoje já não é mais que manipulação. Lembro uma conferência do fotógrafo aqui em Portugal em 2005, sobre a direcção em que corria o Mundo (não recordo o nome, mas sei que Carlos Magno era o moderador). No fim, antes da sessão de perguntas e respostas, Toscani mostrou um vídeo realizado por ele onde alternava imagens da vida desafogada dos brancos ocidentais e a vida de miséria dos negros subsaarianos. Terrível! Não podia ter sido mais gratuito, mais primário. Juraria que aquilo não lhe ocupou dois minutos de reflexão.

3 Comments:

Blogger AM said...

A fotografia literal é uma introdução ao escândalo do horror, não ao próprio horror.

Fotos de Choque, Mitologias, Roland Barthes

27/9/07 7:44 da tarde  
Blogger beluga said...

Exactamente.Uma história não conta a história. No entanto, e neste caso em que supostamente estamos a falar de arte, pergunto-lhe: pendurava uma fotografia vencedora da World Press Photo com uma criança a morrer de fome ou com uma cena de miséria, terrível, na sua casa? Essa frase é também uma forma de "sacudir a água do capote", uma vez que a fotografia é responsável por esse escândalo.

27/9/07 11:02 da tarde  
Blogger AM said...

recorda-me a história de uma amigo (que tinha um amigo...) que tinha "um" Paula Rego, com (desculpe a grosseria) o macaco a ir ao cu à mãe (ou lá o que era...) escondido não sei onde, para não ofender à vista, o olho dos convidados à "dinner party" (antes da "party" da "sobremesa", propriamente dita...)

28/9/07 10:27 da manhã  

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