sexta-feira, agosto 24, 2007

- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou "vem aí muito texto":
O quadro de Pontormo é uma maravilha. Podem dizer: “ah e tal, é arte sacra, não tem piada, é só anjinhos e coisa e pronto”, mas a composição em si é fantástica e as cores (não fui a esta capela, não vi ao vivo, mas quando for, volto a escrever um post só sobre as cores. E que entre a asa de um falcão das florestas do Canadá pela janela dentro se isto não é verdade) do mais bonito contraste de cor da pintura. Melhor só o veneziano (digo eu).

Tudo gira em torno do corpo de Cristo morto, mas como se fosse uma grinalda de relações em pirâmide hierárquica (invertida no que diz respeito ao grau de santidade das personagens) e de idades: o olhar do jovem mais cá em baixo olha para fora e segura o corpo de Cristo, cujo tronco é segurado por outro jovem mais à esquerda que também olha para fora do quadro como se estivessem ambos a pedir ajuda. E isto não é efabulação: todo o resto do quadro nos leva a pensar isso, não só pelas expressões no rosto das outras figuras, mas pelo facto de elas estarem em acção, por se virarem de costas, por procurarem ajuda lá atrás, atrás do próprio quadro se isso fosse possível. Estes dois jovens podem ser então tomados por anjos que afastam do mundo material, o mundo dos vivos, o filho morto para entregá-lo a Deus. De reparar que a primeira figura não levanta o corpo em esforço, não tem o joelho assente no chão e a sua posição sugere-nos que é de facto um ser etéreo. O segundo jovem é então ajudado por uma mulher, provavelmente mais velha, que tem mais abaixo uma cabeça de uma outra mulher. Estas duas personagens femininas são devidamente enquadradas pela mão da Virgem. Se ela não aponta para o vazio, para o filho morto que lhe saiu do colo, deixando a pintura algures entre a Deposição e a Pietá, pelo menos ajuda a criar a ligação entre estas mulheres e ela própria, mais velha que as outras e sem dúvida o segundo ponto fulcral da pintura (o outro é Cristo). Novamente uma mulher de costas estende-lhe um pano. Não vai em busca de ajuda, nem fica a carpir o seu filho como as personagens que estão atrás. O último ponto de contacto desta grinalda é mesmo físico: a Virgem ainda toca com o joelho no joelho de Cristo, no momento em que estão a ser apartados. E atrás, claro, está o artista. Não ajuda porque quando ele nasceu já Cristo estava morto e ressuscitado há muito tempo e porque está cansado de tantas horas frente ao cavalete. (já existia cavalete nessa altura?)

Jacopo Pontormo
Deposition

1528
Cappella Capponi, Santa Felicità, Florence


Pasolini La Ricotta
(cena de um filme a quatro de seu nome RoGoPaG - Rossellini, Godard, Pasolini, Gregoretti)
1963

3 Comments:

Blogger João Barbosa said...

gosto do aparente desequilíbrio da obra.

24/8/07 10:34 da manhã  
Blogger beluga said...

ñão vejo assim (mas as opiniões...). até me parece muito equilibrada com dois mundos distintos, cor bem separada, linhas de força dinâmicas mas que se compensam. não sei, parece-me equilibrada...

24/8/07 12:06 da tarde  
Blogger João Jorge Barbosa said...

eu disse aparente, pq ha 2 linhas de força que formam um «V», com um dos lados com mais força, o do Cristo.
Todavia, isto também não é lei

24/8/07 12:42 da tarde  

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