terça-feira, março 20, 2018

- original sountrack -
ou
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
este post pode ser um original soundtrack, mas é também um "antes e depois", pois a história contada na música "Geni e o Zepelim" é muito semelhante à do conto de Guy de Maupassant "Bola de Sebo" (só encontrei em espanhol). Este conto "conta" a história de um conjunto de pessoas que fogem da cidade de Rouen quando esta é tomada pelas tropas a propósito de conflitos relativos à Guerra Franco Prussiana. O grupo, bastante heterogéneo, é composto por uma prostituta (chamada "Bola de Sebo" por ser pequena e roliça), três casais de burgueses, duas freiras e um jovem radial. É ela quem, no decorrer da viagem, partilha com os restantes membros do grupo alguns mantimentos. Durante a fuga, o grupo fica refém de um comandante prussiano que diz só deixá-los passar se Bola de Sebo o servir. Ela sente-se ultrajada face a tal proposta e nega-se, mas perante a animosidade do grupo - que a culpa por se encontrarem detidos - Bola de Sebo acaba por ceder. A caravana segue viagem, mas agora é ela, Bola de Sebo, quem não vem prevenida com mantimentos, e vê que ninguém partilha com ela o alimento que tem.


Chico, é só pr'ávisar que quando vieres cá, vou gritar e pedir músicas.

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - "Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela famosa dama
Esta noite me servir"
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!

(Geni e o Zepelim, Chico Buarque)


1 Comments:

Blogger beluga said...

desculpem, faltava a letra da música.
não costumo vir ao meu próprio blog...

20/3/18 10:09 da tarde  

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