sexta-feira, novembro 23, 2012

- o carteiro -

hoje trago-vos um post à la mode, um post como os blogs "fixes", os blogs que toda a gente lê, os blogs onde uma imagem vale mais que mil palavras porque ninguém tem duas para dizer. É um post onde o mais importante é a imagem, ou pelo menos, uma parte da imagem. Nem todas a imagens que aqui apresentamos são do século XV, XVI nem da Flandres, mas há muitas que são. Sabemos que as pinturas deste tempo e espaço são caracterizadas pelo gosto do pormenor. Por cada Anunciação há uma janela que se abre ao fundo, através da qual é possível ver a cidade e os telhadinhos e as aves. Há uma rendinha no traje da Virgem, um livro aberto, uma fita a cair do livro, o início de um versículo. Há uma miríade de pormenores que são o reflexo do gosto do artista por mostrar o seu virtuosismo técnico. Também os havia italianos, mas menos. E em tantos pormenores que podiam ser retratados, os artistas deste tempo escolheram o mais pequeno: moscas!

cá no meu mundo, mandar uma pessoa "encher-se de moscas" é mandá-la ir "dar uma volta ao bilhar grande". mas eu queria que vocês ficassem até ao fim. depois podem ir encher-se do que quiserem. As moscas são o insecto mais sujo, mais porquinho que conheço. Andam no cocó, o que me parece suficiente para não gostarmos delas. (O meu pai odeia formigas. Segundo ele as formigas são "umas vacas"). As moscas, na pintura, são consideradas muitas vezes a representação do diabo. Aliás, no Evangelho de São Mateus confunde o deus dos Amoritas (Baal Zebub, sendo que Baal quer dizer Príncipe) com o Deus das Moscas (Baal Zebul). 

Parte do que aqui vou escrever encontra-se aqui. As moscas fazem parte da nossa vida e fariam parte da nossa morte caso pudessem. Thank God! Quando estamos mortos, fazem-nos o mesmo que fazem ao cocó; ou seja, fazem de nós cocó. E depois vão colocar ovos em bifes! (Isto é um trauma que tenho porque uma vez uma mosca pousou sobre um bife que estava temperado para o almoço e deixou lá alguns ovos brancos. Coisa nojenta!) Em vida, chateiam-nos e desconcentram-nos, pairam sobre a nossa cabeça e atrás das orelhas mesmo a irritar. As moscas não nos permitem focalizar o pensamento e por isso são inimigas do pensamento, ou como dizia Steiner, inimigas de Sinnlichkeit. 

Na Bíblia, e desde o Êxodo existe um conjunto de situações em que as moscas aparecem, quase sempre com conotações negativas. Há pelo menos nove situações em que as moscas são referidas: cinco no Êxodo e na parte referente às moscas como uma praga (igual às rãs); duas vezes nos Salmos pelo mesmo motivos, uma no Eclesiastes relativa à putrefacção da carne, uma em Isaías para referir que Deus tem poder sobre elas. Para além da Sagrada Escritura, o mosquedo figura nas Fábulas de Esopo e de La Fontaine, em Erasmo de Roterdão, em Montaigne, em Alberti, em William Golding, na música de Rimsky Korsakov, nas Quatro Estações de Vivaldi e mais não sei. 

Moscas nos quadros é que são uma coisa admirável. Ao que parece, tudo começou com Giotto, que segundo conta Vasari, pintou moscas para brincar com o mestre Cimabue. É que Giotto foi um percursor da pintura do Renascimento, eliminando os fundos dourados da pintura bizantina, reproduzindo a natureza e dando às personagens santas um semblante e expressões menos hieráticas. A par dos anjos que choram, das árvores que despontam atrás de uma procissão, das arquiteturas com pormenor, as moscas faziam parte de uma realidade profana que agora passava a figurar em temas sacros, sem que nem o que era secular nem o sacro ficasse prejudicado. Encontrei as moscas destas pinturas, mas em algumas foi impossível, não porque as moscas não estivessem lá (tenho a certeza que estão), mas porque simplesmente não sei do rasto das pinturas em questão. Além disso, Andor Pigler já fez esse trabalho, um trabalho que eu gostaria de ter feito; ou seja, o levantamento da representação da mosca em toda a pintura. 

Podemos pensar que os autores pintaram moscas para nos alertar quando às vaidades terrenas (no caso de Naturezas mortas), para colocarem nos quadros segredos, pormenores que só eles conheciam, para brincar connosco, para parodiar o seu tempo...





























Sebastiano del Piombo
Cardinal Bandinello Sauli
1516
National Gallery of Art, Washington









Lorenzo Lotto
Giovanni Agostino della Torre and his son Niccolo
1515
National Gallery, Londres























Lucas Cranach
The III-Matched Couple
1532































Giovanni Santi
Man of Sorrows
1490
Szépmûvészeti Múzeum, Budapeste











Jacopo de' Barbari
Portrait of Fra Luca Pacioli and an Unknown Young Man
1500s
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles

Cima di Conegliano
Annunciation
1495
Hermitage, São Petersburgo

Giorgio Schiavone
The virgin and child enthroned
1456-1461
National Gallery, Londres


Francesco Benaglio
Saint Jerome
1470-1475
National Gallery of Art, Washington








Master of Frankfurt
Portrait of the artist and his wife
1496
Royal Museum of Fine Arts, Antuérpia








Carlo Crivelli
Maria e o Menino
1480
Victoria and Albert Museum, Londres



















Carlo Crivelli
Maria e o Menino
1473
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque










Petrus Christus
Potrait of a Carthusian
1446
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque









Anónimo
Portrait of a Woman of the Hofer Family
1470

4 Comments:

Blogger alma said...

Mandei fazer um colar com moscas* a que dei o nome "homenagem às moscas mortas" se não tivesse já o prometido a uma sobrinha :)teria todo o gosto em o oferecer à Beluga

* No próximo encontro levo-o (gargalhada)

27/11/12 4:16 da tarde  
Blogger beluga said...

Cara Alma, fiquei a pensar como seria esse colar. O que é que lhe deu para mandar fazê-lo? E como? As contas são moscas de plástico, é isso? Seja como for, vou querer ver essa peça!

28/11/12 12:51 da manhã  
Anonymous ana said...

cherchez la mouche!
venero-te e idolatro-te, posts como este dão-me um gozo bestial

29/11/12 6:35 da tarde  
Blogger beluga said...

tem dias ana. às vezes penso "mas o que é isto que não me sai uma ideia de jeito". beijos

30/11/12 1:00 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home