terça-feira, agosto 30, 2016

se eu pudesse chegar até ti, se me pudesses ler, se pudesse colocar em palavras ditas aquilo que acho, que sinto, seria assim:

"acho que... não queres nada. Queres aquilo que sabemos, como eu. Ou talvez nem mesmo isso. Mas todo o galanço protocolar te aborrece de morte. Imagino-te a dizer "que chatice... não tenho tempo para isto!". Imagino-te até a rir depois das despedidas. A rir e a pensar "é mesmo tótó, coitadinha. E está de quatro". que p*** estúpida que eu sou: acreditar que alguém iria sentir algo por mim... porquê? só porque tens um blog? porque fazes umas merdinhas com as palavras?
sei que não queres nada. queres saber que há alguém que espera por ti, alguém que pensa em ti, alguém que estaria contigo sem condições, mas é só; ou seja, queres o ego bajulado.
às vezes parece que aquilo que sinto por ti me vai saltar pelo peito fora, mas compreendo que seja unilateral.
Tinha tanto para te dar."

quinta-feira, agosto 18, 2016

 
para quem não sabe, a I-D é uma revista de moda, música, cultura, etc em que na capa há sempre alguém com um olho tapado


vi este filme em 2002, mais ou menos. nessa altura ia ao cinema todas as semanas. vi naquela sala o "Irreversível" (lembro-me que à medida que a violência ia aumentando, eu ia descendo na cadeira), o "Habla con Ella", o "Dancer in the Dark", "A Pianista" (que foi para mim uma revelação) e este "Intervenção Divina". Lembro-me bem de quando vi esta cena: transpirei! Tem sexo, sem aquilo que é conotado com sexo.  
video
olá professor
 
Desculpe mas só agora vi o seu comentário. Pois olhe, não sabia desse urinol portátil. Isso de prático não devia ter nada, mas quer dizer... aquelas roupas também não eram práticas: fosse para fazer xixi onde fosse, aquilo não era prático.
Mas sabia da história acerca do xixi em pé. Lembro-me aliás de estarmos os dois em Santa Catarina - não me lembro a que propósito - frente à montra de um oculista que tinha em exposição, para além de óculos, umas figurinhas típicas. uma delas era uma camponesa com um balde de leite junto aos pés e por causa disso começámos a falar das mulheres que faziam xixi em pé e sugerimos mesmo que aquele leite tivesse um aroma especial...
Até breve!

quarta-feira, agosto 17, 2016

- original soundtrack -

porque a chuva torna tudo melhor (excepto as férias de Verão, claro)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

"queria ser uma mosca"

olá a todos, tudo bem? óptimo, ainda bem!
não, não queria ser uma mosca: as moscas são irritantes e muito sujas. mas quando ouço essa expressão ("ah, como queria ser uma mosquinha"), penso logo: se fosse uma mosca onde é que eu iria? procurar cócó, calculo; irritar alguém colocando-me no ecrã da televisão; ouvir alguma conversa interessante. mas de quem? as coisas mais interessantes a gente não diz a ninguém, certo? ou então ver uma pessoa na intimidade com todas as atitudes mais boçais que podemos imaginar. mas quem? a verdade é que quando confrontada com esta possibilidade (se de facto fosse uma possibilidade), não conseguia dar uma resposta. é como responder a algumas questões dos questionários de Verão: "com quem iria para uma ilha deserta?"; "se o mundo acabasse amanhã, o que é que faria hoje?" (esta eu sei responder...). talvez, enquanto mosca fosse para a montra de uma pastelaria admirar o chantilly e sonhar com fruta podre.
esta conversa das moscas tem um propósito. há uns anos fiz um post sobre moscas em obras de arte. o post em questão está aqui. Entretanto encontrei mais moscas que talvez desejem conhecer. Tenho para mim que as moscas surgem aqui por virtuosismo, já que não fazem parte da temática das obras em questão. Não apresento portanto naturezas-mortas onde a mosca faria sentido, mas antes obras de carácter religioso ou mitológico (não sei se não estou a dizer uma grande asneira: religioso e mitológico não são exactamente coisas diferentes. o paganismo que defendia a existência e crença em seres mitológicos, tem uma série de práticas religiosas.) É verdade que a mosca surge na Bíblia conotada com o diabo, mas não me parece que seja o caso. Para mim era só virtuosismo.


































Pietro di Cosimo
Venus, Mars and Cupid
1490
Gemaldegalerie, Berlim








































Carlo Crivelli
Saint Catherine
1491-1494
National Gallery, Londres













































Niccolo di Maestro Antonio
Virgin and Child
1486
Minneapolis Institute of Arts, EUA
 




















Giorgio Schiavone
Virgin and Child with angels
1459-1460
Walter Arts Museum, EUA
 








 
- não vai mais vinho para essa mesa -

[conversa com o patrão]
- já lhe disse que tem uns lábios lindos?
- ... sim... várias vezes. sabe que o Balzac dizia que toda a mulher tem a sua perfeição.
- sabia. e o Herodes o que é que dizia?
- hã...?!
- o carteiro -

e o Homem criou Deus... (XXI)
Como podemos ver, até pelo último “e o Homem criou Deus”, o Papa já não era a autoridade suprema na Europa. Em meados do século XVI o Luteranismo, o Calvinismo e o Anglicanismo tornaram-se a religião de grande parte da Europa Central e do Norte. O protestantismo estava de tal forma em ascensão que até se dizia que em 50 anos suplantaria o Cristianismo. No entanto não foi isso que aconteceu.
 
Em Espanha, em Pamplona, trava-se por essa altura uma batalha simples - e muito comum em qualquer parte da Europa - por território. Esta contenda parece não ter qualquer influência na evolução do cristianismo. É uma batalha como outra qualquer na qual são disparadas balas de canhão. Uma dessas balas atinge a perna de um soldado acabando assim com os seus sonhos de grandeza militar. O nome desse soldado era Inácio de Loiola. Ao longo de uma convalescença longa e dolorosa, as únicas leituras que dão algum alívio a Inácio são as espirituais. Elas inspiram-no a ser um soldado novamente, mas desta vez ao serviço da Virgem Maria. Já com 30 anos (o que naquela altura era muito), Loiola aplica a mesma paixão que tinha pela e na guerra, ao estudo religioso. O seu objectivo é viver na Terra Santa. De facto em 1522 parte para lá, fazendo uma pausa em Barcelona. Segundo a lenda, uma vez em Barcelona Loiola ajoelha-se durante toda a noite junto ao altar de Nossa Senhora de Montserrate e deixa ali a sua espada e todas as suas roupas de combate. Adopta antes um traje modesto e durante os 10 anos seguintes dedica-se à meditação, chegando mesmo a escrever os seus "Exercícios Espirituais", um livro feito para ajudar as pessoas a descobrir o seu papel no mundo de Deus. A tónica de Loiola no indivíduo parece estar em linha com o pensamento da Reforma Protestante, embora Loiola seja completamente católico. Loiola também ensina, principalmente crianças, mas é pelos seus dotes enquanto pregador que chama a atenção da Inquisição. A Inquisição via com desconfiança a pregação por parte de pessoas que não eram ordenadas. Loiola é então atirado para a cadeia por 42 dias e uma vez liberto, proíbem-no de pregar.  Não satisfeito, Loiola vai para Paris estudar Teologia (diz a lenda que na aula de Gramática era o único aluno adulto, já que os seus colegas eram adolescentes).
 
E 1540 Inácio de Loiola funda uma nova Ordem: os Jesuítas. Recruta os melhores, os mais inteligentes e os mais dedicados para se juntarem a ele. A sua dedicação enquanto missionários fez dos Jesuítas uma das mais poderosas forças do Cristianismo, força essa que começou com uma escola na Sicília e depois se expandiu para o resto da Europa. A sua missão consistiu em reavivar a fé católica neste tempo de Reforma.
 
- o carteiro -

na calha...





























































domingo, agosto 14, 2016

sai pensamento mau, sai pensamento mau, sai pensamento mau
diz-se que o que não levaram os bárbaros, levaram os Barberini (quod non fecerunt barbari, fecerunt barberini). "fecerunt" quer dizer fazer, mas vocês percebem. Barberini era o nome de uma família romana que deu um Papa à cristandade. esta frase vem a propósito do Papa em questão não se ter coibido de mandar derreter o bronze da cúpula do wPanteão para fazer o baldaquino que se encontra em São Pedro no Vaticano. Pode-se acrescentar que aquilo que não levaram os bárbaros, nem os Barberini, levaram os franceses e os alemuães. os primeiros pela mão de Napoleão e os segundos, fazendo jus à moda do Grand Tour (iniciática para os jovens de algumas famílias mais ricas), com o seu espiírito ex
pedicionário. Levou-se de tudo: moedas, altares completos, esculturas colossais... Tenaãoo em conta a actividade terrorista do ISIS, do Boko Haram, dos Talibas e quejandos, pode dizer-se que foi bem melhor assim, embora esta observação peque por ser paternalista. Isto é o mesmo que sugerir ou afirmar uma superioridade do Ocidente face ao próximo oriente e mesmo a países como a Grécia que tem parte dos frisos do Partenon no Louvre e no Museu Britânico. Por outro lado, quando penso que em Itália, até há pouco tempo, se pensava em privatizar/vender monumentos como o Coliseu ou o David do Miguel Ângelo...
O mais curioso é saber que os alemães (pelo menos) pedem aos russos a devolução das peças que o exército soviético pilhou no final da Segunda Guerra Mundial. Ladrão que rouba ladrão...

quinta-feira, agosto 11, 2016

beluga - que foi, filhinha? estás muito jururu.
beluga - comi um hamburguer, coisa que não comia há anos. há muitos anos.
beluga - e depois?
beluga - e depois? e depois sinto-me gorda! eis a resposta ao teu "e depois?"
beluga - ó filhinha, era um hamburguer hallal. eles não comem carne vermelha. já viste algum muçulmano gordo?
beluga -  e o ketchup e a maionese?
beluga - faz de conta que também são hallal.
beluga - merda, tenho o rabo a parecer um campo de golf, cheio de buracos de celulite.
beluga - vai tomar banho que isso passa.
beluga - ainda por cima o espelho da casa de banho é tão grande.
beluga - filhinha, faz como o perseu quando foi decapitar a medusa: entra de costas.


estou com estas calças vestidas há tantas horas que quando despi-las elas vão manter-se de pé

quarta-feira, agosto 10, 2016

- original soundtrack -

isto é muito bonito





















(Mi par d'urdir ancora, Enrico Caruso, ópera "Les pêcheurs de perles" de Bizet)
- não vai mais vinho para essa mesa -

da antítese

[ouvido no comboio]
- O Camões??? Tipo, dah!... aquilo é escrita pré-histórica!!!
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou "como já estava a sentir falta dos "antes e "despoises"... pois é meus fiéis leitores, gente que vem de todo o mundo só para ler estas parvoíces: cá estamos com um "antes e depois". hoje trago-vos Príamo (não confundir com Príapo). Não percebo muito bem esta representação e vou explicar-vos porquê: segundo a mitologia grega, Príamo era rei de Tróia quando se deu a Guerra de Tróia. Para quem não sabe nem viu o filme com o Brad Pitt a fazer de um Aquiles muito másculo (ao que parece não foi sempre assim já que Aquiles numa outra passagem da sua vida teve de se vestir de mulher para escapar à morte), esta personagem participou na Guerra de Tróia que opôs gregos a troianos: os gregos queriam raptar Helena de Tróia, a mulher mais bonita da Antiguidade e os troianos queriam mantê-la. Quem venceu foram os gregos que com o célebre "Cavalo de Tróia" se infiltraram na cidade, atacaram Tróia e raptaram Helena. Aquiles ficou ferido no calcanhar (a única parte do corpo que era vulnerável). Mas antes disso, matou Heitor, filho de Príamo. Ora o que vemos nesta cena é, segundo creio, Príamo a pedir a Aquiles que libere o corpo do seu filho Heitor. O que me confunde são os timings: é que depois disto Aquiles ainda entrou dentro da cidade combateu e, aqui sim, foi ferido. Mas vamos ao que interessa: no século XIX as pessoas - e os governos - interessavam-se genuinamente pelas coisas culturais: discutia-se literatura nos periódicos, nos serões, criticavam-se os artistas, faziam-se exposições nos Salões, exposições às quais o público acorria. Sendo que as exposições nos Salões tinham o apoio das altas individualidades, era natural que vigorasse uma estética oficial. E no início do século XIX houve um gosto um bocado piroso pelo orientalismo e pelos grandes temas mitológicos, históricos e religiosos, totalmente desadequados ao seu tempo: com Nietzsche Deus tinha morrido e já ninguém acreditava em deusas e deuses da Antiguidade. Só Napoleão dava aos pintores bons motivos para os temas históricos/políticos. Mas muitos destes artistas legitimados pelos Salons foram posteriormente - e pouco posteriormente - esquecidos em detrimento da nova estética impressionista. Bom, o que interessa é que alguns modelos da Antiguidade são assim a modos que arquetípicos (sim, a palavra existe). Para além deste post, conto colocar outro que compara um relevo romano com uma pintura de Ingres. E assim acontece." 
Príamo aos pés de Aquiles
Sarcófago da Colecção Borguese
século III
Museu do Louvre, Paris

Martin Langlois
Príamo aos pés de Aquiles
1809
Escola Superior de Belas Artes, Paris
- não vai mais vinho para essa mesa -

prioridades...















- o carteiro -

quer se acredite ou não, temos de concordar: há santos muito estranhos, como santa maria egipcíaca, santa wilgefortis, São Guinefort... em Portugal também os há: mais estranhos e menos estranhos. um desses santos que protegem as vilas portuguesas e do qual se contam história jocosas é São Gonçalo de Amarante, protector, claro está, de Amarante. Toda gente sabe, e já aqui referi, as piadas, lenga-lengas e tradições em torno deste santo. Chamam-lhe casamenteiro das velhas, falam do seu "caralhinho" (desculpem) e por aí em diante. Mas há uma característica da representação de São Gonçalo de que infelizmente se fala pouco. São Gonçalo surge sempre - pelo menos que eu saiba, mas se não é sempre, devia ser - em cima de uma ponte, por vezes como que pairar sobre ela. Porquê? Não é que ele seja o protector das pontes, que não é, mas antes o protector das margens. Ora vamos lá ver se a gente se entende: imaginem um mundo parco em imagens e em informação, pobre em todos os aspectos e onde o perigo estava sempre à espreita e podia vir da mais insignificante das origens. As pontes eram de facto potenciadoras de perigo, pois ligavam o nosso lado, ao desconhecido.
 





 













Da mesma maneira que os poços eram os lugares de licenciosidade, onde as regras domésticas eram quebradas e onde homens e mulheres se encontravam (até existe aquela ideia de ir à fonte e quebrar a asa do cântaro que é no fundo uma analogia para iniciação sexual), também as pontes potenciavam o confronto com o desconhecido, confronto esse do qual algo de bom podia vir, mas que quase sempre era associado com o mal. Do outro lado da margem estava o rival, o outro. Para lá chegar era necessário entrar em outros domínios, pagar imposto, acautelar-se.
 
Nos tempos que correm, o outro está também na outra margem. Essa margem pode não ser a da ponte, pode não ser tão literal. O outro é aquele que nos quer impor as suas ideias pela força física, o outro é aquele que nos quer roubar o emprego, o outro é sempre caracterizado de forma - total ou parcial - negativa. Escrevo isto porque recordo os outros que na Segunda Guerra Mundial nos acolheram de forma a que sobrevivêssemos às várias formas de destruição. Esses outros eram sírios, egípcios e israelitas. São imagens retocadas quanto à cor (foram coloridas), mas permanecem fiéis à ideia de que os outros somos nós e que em História não há "ses". Convém por isso não esquecer a lição.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 







(vi aqui)

sexta-feira, agosto 05, 2016

ridícula

quarta-feira, agosto 03, 2016

deixar o meu emprego?

terça-feira, agosto 02, 2016

procuro (já com algum desespero) T0 ou T1
[consulta]
...
eu - Isto acontece-me mais no Verão...
psiquiatra - Você muda com o tempo? Não a sabia tão susceptível...
eu - Não, espere. Vai compreender. No Verão dou por mim a comparar-me com todas as mulheres. Altas, baixas, magras, gordas... Em todas vejo encantos que me faltam. Às vezes até entro em lojas para ver como elas são giras. Comparo-me com  todas, mas principalmente com miúdas de 19 anos. É destrutivo e cansativo. Chego ao fim do dia a achar-me uma merda embora saiba que não sou uma merda e que as pessoas não são só o físico. Desculpe por ter dito "merda", mas acho que já usamos esta palavra aqui. Os dois. Portanto estou desculpada, certo?
psiquiatra - Está desculpada. Mas não tem 19 anos....
eu - Pois não, mas penso "como é que alguém pode querer estar comigo quando há lindas miúdas de 19 anos, com tudo no sítio?".
psiquiatra - Eu acho que não há muitos homens com alguma idade a querer dar voltas com miúdas de 19 anos.
eu - Pois eu cá acho que há!
psiquiatra - Talvez, mas para relações sérias não escolhem miúdas de 19 anos.
eu - E quem é que quer ter relações sérias? Hoje toda a gente quer dar voltas. Não quero dar voltas; não sou um hamster...
psiquiatra - Ainda há pessoas que querem relações sérias.
eu - É preciso ter sorte, ter muita sorte.
psiquiatra - Muita sorte geralmente é batota.
eu - Como assim?
psiquiatra - É possível que uma pessoa tenha muita sorte uma vez. Ganhe o euromilhões uma vez, mas duas já é estranho. Também se está a ganhar sempre pequenos prémios é estranho.
eu - E em que é que isso se aplica ao que estamos a falar?
psiquiatra - A sua história nesse âmbito não é só uma questão de sorte ou de azar. Não pode dizer "ei caramba, sou uma azarada". Não. Também é um percurso que você traçou. Não quer menos do que aquilo que estipulou para si. Não quer... dar voltas. É uma escolha válida como qualquer outra e muito apreciável, na minha opinião. 

segunda-feira, agosto 01, 2016

- original soundtrack -

ouvi esta música há muitos anos, cantada pela filha, Bebel Gilberto

Este seu olhar quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar, é pensar que você
Gosta de mim como eu de você

Mas a ilusão quando se desfaz
Dói no coração de quem sonhou
Sonhou demais, ah! se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos

(Este seu olhar, João Gilberto)
- não vai mais vinho para essa mesa -

 


- o carteiro -

e o Homem criou Deus... (XX)
 
Como vimos, os textos de um filósofo em particular foram importantes para a formação de um novo espírito a Ocidente. Os textos eram de Aristóteles cuja lógica - lógica aristotélica - tornaram-se as bases para a alteração de pensamento, passando da contemplação interior, para a observação exterior do mundo. Um paradigma disto é o estudo sistematizado do corpo humano através de dissecações (proibidas em muitas cortes, principalmente as cristãs). Para preservar os valores cristãos, Igreja e Estado unem-se frequentemente para suprimir os avanços científicos. Mas ainda mais frequentemente unem-se para travar, na Europa, uma luta pela propriedade, pelo poder e pelas almas humanas. É isto que marca o segundo milénio do cristianismo.
 
De forma crescente, os dirigentes das nações emergentes aliam-se aos reformistas protestantes contra o poder de Roma. E não há nenhum lugar onde isto seja mais visível e exemplificativo do que em Inglaterra. Na Inglaterra do início do século XVI, Henrique VIII, um católico devoto (o Papa chega a dar-lhe o título de "Defensor da Fé") tem uma obsessão, legítima, de dar ao trono inglês um herdeiro (homem) algo que o rei não consegue alcançar com a sua esposa Catarina de Aragão. Vai daí - e como a culpa é sempre das mulheres! - toma como amante Ana Bolena e rapidamente a engravida. Em segredo, Henrique casa com Ana Bolena, mas para conseguir que a criança seja mesmo legítima, falta um pormenor: divorciar-se da primeira mulher. Só que isso naquele tempo ia contra a lei católica. Henrique apela ao Papa Clemente VII que autoriza o divórcio, mas este nega. Em resposta Henrique depõe o arcebispo da Cantuária e sugere um outro da sua confiança. O novo arcebispo declara o primeiro casamento nulo e reconhece como legítimo o casamento entre o rei e Ana Bolena. O Papa responde excomungando Henrique e Henrique responde quebrando laços com Roma e posiciona toda a Igreja sob o seu reinado, sob a sua própria supervisão, orientação e liderança. Isto marca o início do Anglicanismo.
 
Em 1534 Henrique vai mais longe pedindo a todos os súbditos que se sujeitem ao Acto de Supremacia. O Acto diz que Henrique é o governador supremo de Inglaterra, colocando-o acima das autoridades religiosas. Há outra consequência da luta de Henrique VIII com a Igreja de Roma: Thomas More, o chanceler do reino, declina o convite do monarca para estar presente no casamento do rei com Ana Bolena e recusa igualmente o Acto de Sucessão segundo o qual apenas os filhos de Henrique com Ana Bolena eram os únicos herdeiros ao trono. Henrique VIII não tem mais nada: encerra Thomas More na Torre de Londres e em 1535 ordena a sua decapitação. Como se não bastasse, Ana Bolena "falha" e não consegue dar ao rei o tal filho. Por causa disto, também ela é decapitada. 400 anos após a sua morte, Thomas More, o autor da revolucionária "Utopia", é beatificado e declarado santo pelo Papa Pio XI.

 
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

obras de arte estranhas... humm...
 
fui ver uma exposição de obras de arte estranhas. sim, porque eu também vou ver exposições. quase nunca, verdade seja dita. agora que trabalho em arte e com arte, nunca vi tão pouca arte. por isso os posts são mais sobre literatura (tenho sempre umas horas para ler no comboio. nada que exija muito pois com o barulho é difícil concentrar). mas lá fui eu ver essa exposição com o meu bloquinho de apontamentos, garrafa de água e o telemóvel no bolso. tirei apontamentos de quase todas as obras e só quando cheguei ao fim é que me lembrei que podia ter tirado fotografias às legendas. enfim, uma parvoíce estranha a combinar com as obras que não sendo parvoíces, são estranhas... humm...

 
 
 
Ambroise Crozat
A visão de Zacarias
1722
Museu dos Agostinhos, Toulouse
[olhos no cimo das escadas]




















Jacques-Fabien Gautier d'Agoty
Femme vue de dos, disséquée de la nuque au sacrum, dite "l'Ange anatomique"
1745
Biblioteca Nacional de França
[quimera]























Escola Francesa
Louis-Antoine de Gontaut, duque de Biron, enquanto pavão
século XVIII
Palácio de Versalhes
[o título diz tudo]
























Anónimo Flamengo
Díptico satírico
1520-1530
Colecção da Universidade de Liége
[palavras para quê]





















Ambroise Frédeau
Le bem-aventurado Guilherme de Toulouse atormentado por demónios 

1657
Museu dos Agostinhos, Toulouse
[e que demónios, credo!]




















Pierre Mignard
Les Temps coupant les aisles de l'amour
1694
[coitada da criança]




















Hans Wechtlin
L'homme blessé
1517




















François Boucher
La toilette intime
1742
[o que é que ela está a fazer? xixi para um recipiente?]
















Jacques Stella
Christ entoure de croix
XVII
[de quantas cruzes precisas?]



















Bartolome Passerotti
L'Allegorie de Cinq-Sens
XVI
[aquela mamoca era desnecessária...]




















Jean Huber
Le lever de Voltaire à Ferney
1772
[Voltaire de calças na mão]















Jean Jacque Lagrénee, le jeune
Taça em forma de seio, dito de Maria Antonieta
1788





















Escola Francesa
La Chasse à la chouétte
Século XVII
[os pássaros têm rosto de homem]
- não vai mais vinho para essa mesa -

a minha cabeça por dentro está como a da Medusa por fora