sábado, julho 30, 2016

- o carteiro -

cada um enunciará coisas pelas quais achará valer a pena viver. o Woody Allen fá-lo assim:
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Para mim, a vida vale a pena ser vivida por isto:

- beijos. na cara, na boca, com língua, sem língua... beijos.
- água (para nadar, tomar banho de mangueira...)
- "Ella giammai m'amo" do Verdi
- Os Caravaggios não mitológicos
- "A pianista" do Hanneke 
- O Eça, o Thomas Mann
- Salmão grelhado, cerejas, melancia
- pequenas atenções: girassóis, tulipas, um telefonema, um postal ...
...

sexta-feira, julho 29, 2016

os meus dias: hordas de pseudo-intelectuais, aspirantes a artistas e críticos e toda a intelligentsia porvir a dar-me ordens
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quarta-feira, julho 27, 2016

- o carteiro -

da narrativa
este não é um post sobre os estudos filosóficos do Sócrates na Sorbonne. não é sobre essas narrativas que quero falar, é sobre outras. uma narrativa é uma história, uma construção, certo? é algo que não é natural, mas preparado para produzir este ou aquele efeito. de forma um pouco naif e demodé, defendemos que "antes é que era bom", ou seja, antes não havia essa preparação, essa forma de persuasão, de manipulação. Abrimos uma revista (e falo muito por mim) e pensamos: "nunca vou ser assim". claro que nunca vou ser assim nem ninguém vai ser assim. como é possível uma mulher não ter poros ou sinais? nunca ninguém será assim pois a fotografia foi manipulada. E não, isto não é uma coisa de agora, não é uma modernice. Não, antes não era diferente. A fotografia é uma construção, desde sempre.
Vejamos os primórdios. Talvez por uma questão de afirmação num mundo onde acaba de chegar, a fotografia começa por mimetizar a pintura procurando reproduzir as poses e as temáticas. Usam-se cenários e acessórios de forma a tornar aquela imagem o mais parecida com a pintura. Esta por sua vez, olha primeiro com desconfiança para a fotografia, com desdém, até, mas descobre-lhe vantagens. Não é raro vermos fotógrafos que vão buscar à pintura a sua temática (Julia Margaret Cameron) ou pintores que se servem da fotografia para pintar. E mesmo nisto não há que menosprezar em nada a iniciativa destes pintores ou achar que estes são menores: muitos dos grandes mestres usavam a câmara escura para pintar. O Hockney explica isso bem num livro. Projectavam, através de um sistema de lentes, a realidade a pintar, de forma invertida. Se pintar de forma normal seria difícil, imaginem verem a imagem invertida!
 
Fotografia enquanto pintura
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Julia Margaret Cameron
Venus chiding Cupid and removing its wings
 
Pintores fotógrafos
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Degas
After the bath, Woman drying her back
1896
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DegasAfter the bath, Woman drying her back1896
 
Mais à frente no tempo, mas ainda num momento muito inicial da vida da fotografia, salientam-se fotógrafos pictorialistas como o Steichen ou o Stieglitz cujo trabalho procura uma aura artística embora não relacionada com a pintura, como referi há pouco. Através de desfocagem, de uso de várias lentes, de lentes riscadas ou partidas, os fotógrafos pictorialistas procuravam que a fotografia não fosse pura (fotografia pura foi de facto o nome do movimento oposto), que viesse revestida de alguma "artisticidade". Desculpem, não sei que outro nome pode substituir este... Isto não é manipulação de imagem? Claro que é? Só que não é num computador.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Steichen
The Pond—Moonlight
1904
 
Existe outro tipo de manipulação, uma outra forma de contar, de construir a narrativa que é quase insultuosa. Embora para muitas pessoas não o seja, a verdade é que o enquadramento pode fazer-nos acreditar numa ideia que não corresponde ao real. Somos manipulados e a imagem é manipulada porque retirada do seu contexto. O melhor exemplo é o dos aglomerados de pessoas: determinado ângulo na captação de imagens pode fazer-nos acreditar que a manifestação foi um sucesso ou que o comício foi um fracasso. Aliás, fazemos isso quando escolhemos cortar a fotografia em que estamos de férias com o nosso ex-namorado (é um exemplo e um exemplo que não tem nada de pessoal).

Num ensaio para a revista Life em 1951, Eugene Smith captou a vida miserável da vila espanhola Deleitosa. Esta reportagem estava inserida no Spanish Food Project de Smith. A reportagem desmente Franco quanto às condições de vida das pessoas, o seu grau de escolaridade, a liberdade, a prosperidade... Mostra uma Espanha atrasada, onde se passa fome, onde religião e política se imiscuem nas decisões mais prosaicas dos cidadãos. Mas não obstante Eugene Smith procurar - ou dizer procurar - a imagem pura, a imagem real, a verdade é que ele acaba por tomar partido e fazer uma manipulação da nossa opinião à força de querer mostrar a imagem pura. Uma fotografia que recordo de ter visto essa reportagem foi a de um velório. Nela, um grupo de mulheres chora a morte de um homem que se encontra em primeiro plano. A imagem é manipulada e manipula. Manipula pois expõe o lado é emocional, algo que não podia acontecer quando se procura a fotografia do real, a verdade. Talvez também o fotógrafo tenha sido manipulado, talvez ele tenha "deixado levar-se". Não fala de factos, mas de pessoas, de emoções. Por outro lado é manipulada devido pois Smith retocou a fotografia publicada na Life: escureceu o rosto da mulher mais à esquerda, de forma a que não se notassem os seus olhos que na realidade ficaram a fitar o fotógrafo. Ora vejam aqui.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mas a manipulação não acaba aqui. A escolha do fotógrafo quanto à luz, o ponto de vista, a sua colocação no espaço... tudo isso faz com que se conte uma história em detrimento de outra. Senão vejamos: a fotografia é captada de um ponto mais elevado como se o fotógrafo estivesse de pé e fosse uma entidade mais avalizada que qualquer outra das almas ali presentes: como um médico, por exemplo. Mas não é só. O espaço estreita-se com aquela linha a marcar o canto em viés e com, em cantos opostos, a cabeça de uma mulher (canto superior direito) e a cabeça e parte do corpo do homem morto. Estas duas figuras truncadas parecem surgir mesmo a tempo de "fechar" a história e o enquadramento. Não cremos que exista mais espaço para além daquele que nos é mostrado, um pouco pela forma redonda e completa como a composição se desenvolve.  
Sim, é isso mesmo: toda a fotografia é construção, é narração e, em última análise, manipulação. O ângulo que o fotógrafo escolhe, o tema (para não falar em luz e até filtros, máscaras), tudo isso é uma forma de manipulação da imagem e de quem a vê. por isso beluga, lembra-te deste post quando abrires revistas e te sentires uma m**** face às mulheres que ali vês.

segunda-feira, julho 25, 2016

- não vai mais vinho para essa mesa -


quando tinha seis anos, gostei do Bernardo. O Bernardo não me ligava meia e acabou por namorar com a Carla que era minha amiga. "Namorar", dentro daquilo que é possível namorar aos seis anos.

no liceu gostei do Vasco. O Vasco, que era muito popular, não sabia que eu - que não era popular - existia.

Gostei também, mais tarde, do João. O João achava-me graça, mas estava comprometido com as drogas e o álcool.

depois o meu professor de religião e moral, também padre, levou-me para um pinhal.

em seguida emagreci muito e não tinha paciência para gostar de ninguém, especialmente de mim. obviamente, também ninguém gostava de mim.

Depois apaixonei-me pelo Rui. Mas o Rui já tinha a vida dele montada com uma namorada e bebés a caminho. eu era suplente, para as horas vagas.

Quase 8 anos depois, gostei do Zé Pedro que também não me ligava meia.

O L. foi a única pessoa que gostou de mim. Mas andávamos os dois a "tapar o sol com a peneira". foi o meu primeiro e único namorado. aos 34 anos.

Aparecem pessoas, claro, mas fico sempre a pensar que estão a brincar comigo e que se divertem à brava. imagino que para essas pessoas eu nem sequer seja um pipi, mas antes uma masturbação ao ego. e o nervosismo toma conta de mim de tal forma que acabo por me comportar como uma miúda de 10 anos que vai cantar o Frère Jacques no sarau da escola. ou acho que sou uma oferecida. ou que disse qualquer coisa de errado, ou que a minha roupa não está bem, ou que sou fria, ou que tenho alguma coisa nos dentes... enfim, dou voltas à cabeça como a aquela d'O Exorcista. 

Dizem-me que grandes paixões não fazem grandes relações, que a paixão acaba, que não é assim tão importante, nem é importante estar com alguém. eu acredito e concordo... e pur si muove...
- original soundtrack -

um clássico para cantar no banho depois da aula de ginástica e que, de resto, vai bem com a época em que estamos:














Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol


Que levo p'ra chorar
uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar
uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar
uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar

Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol
...

(Natércia Barreto, Os meus óculos de Sol)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

olá amiguinhos, tudo bem? deixo-vos hoje um "antes e depois" literário. parece-me que isto é um antes e depois, não sei... vocês dirão de vossa justiça. o primeiro excerto é de um livro do Flaubert, "A Educação Sentimental" que o Woody Allen considera uma das coisas pelas quais vale a pena viver. O livro tem coisas maravilhosas que mais tarde irei colocar aqui no belogue e tem também estas frases que não sendo maravilhosas, me lembram outra coisa: uma passagem d' "O Primo Basílio" do Eça, que de facto foi escrito após "A Educação Sentimental". Apesar do Eça ter ido buscar muito da "Madame Bovary" do Flaubert para o seu "O Primo Basílio", e de ter ido buscar muito das "Ilusões Perdidas" do Balzac para "A Capital", não sabia que havia esta referência. Obviamente o Eça é, para mim, um nome maior da literatura "estratosférica" que não necessita de copiar nada. Mas as frases têm semelhanças. Pelo menos é o que me parece. Então vamos lá:
 
"Parecia a Frédéric, ao descer a escada, que se tinha tornado um outro homem, que a temperatura perfumada das estufas quentes o rodeava, que entrava definitivamente no mundo superior dos adultérios patrícios e das altas intrigas." (FLAUBERT, Gustave, A Educação Sentimental; Lisboa: Relógio d'Água Editores, 2008, p. 294-295)
 
"(...) e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações"(QUEIRÓS, Eça, O Primo Basílio)

Dizeindeme o que achaindes. Adeus, escobainde os dentes, dizeinde as bossas orações e beijinhos repenicados.
 
- o carteiro -

e o Homem criou Deus... (XIX)

À medida que a doutrina cristã evolui a Ocidente, o Oriente aproxima-se de um momento crucial: Constantinopla, o epicentro da cristandade está prestes a experimentar algo novo. Trata-se da invasão dos exércitos muçulmanos. De facto o poder militar a Ocidente estava a diminuir e a Igreja estava a braços com a questão protestante, tornando muito mais fácil a entrada em Constantinopla, em 1453, das tropas do sultão turco Mehmet II. Os cristãos são completamente subjugados: os que ali permanecem são taxados, convencidos a converterem-se ao Islão e proibidos de professar a sua fé. Também as igrejas são confiscadas e convertidas em mesquitas. Constantinopla, a segunda Roma, a Capital da Igreja a Oriente deixa agora de ser o coração de uma tradição religiosa, para passar a ser de outra (nesta altura o Islão tem cerca de 800 anos).

Mal a luz de Constantinopla se extingue, outra se acende a muitos quilómetros de distância em Moscovo. Agora é Moscovo que se ergue como novo centro da cristandade a Oriente. A crescer a bom ritmo, Moscovo reclama para si o título de terceira (e final) Roma. A ascensão da Igreja russa não é a única consequência da conquista muçulmana da Constantinopla cristã. Agora há também um grande número de refugiados que se desloca de Constantinopla, sendo que muitos deles se estabelecem em Itália. Entre este grande número de refugiados estão artistas, intelectuais, estudiosos que vão contribuir para o aparecimento de um dos períodos mais criativos da cristandade ocidental e civilizada: o Renascimento.

O Renascimento foi também uma época que viu serem alcançados grandes desenvolvimentos na ciência, filosofia e religião. Muito do que se descobre nestes âmbitos é o que já havia sido descoberto quase um milénio antes, mas que a Idade Média fez adormecer. Em Espanha, por exemplo, este conhecimento antigo composto, na sua maioria, por obras de autores gregos foi preservado por estudiosos muçulmanos. E aqui está uma grande ironia: as pessoas que preservaram estes escritos foram expulsas de Espanha nos anos anteriores e posteriores a 1492 (ano da expulsão definitiva dos muçulmanos da Península Ibérica pelos Reis Católicos). Foram estas pessoas, juntamente com o interesse dos monges europeus que se deslocam a Espanha para aprenderem, e o grande fluxo de pessoas que vinham de Constantinopla até Itália, que fez com que o Renascimento italiano fosse humanista e completo. A Espanha chegavam cristãos de França, da Escócia, Alemanha... para estudar filosofia, teologia e a língua árabe. Entre os trabalhos de filosofia, os de um filósofo em particular foram estudados pelos muçulmanos: Aristóteles. Aristóteles teve muita influência numa disciplina emergente e nova: a ciência. A lógica aristotélica dá aos europeus as bases para a alteração de pensamento. Passa-se da contemplação interior para a observação do mundo.
- o carteiro -

se tivesse Instagram, seria mais ou menos assim: sem Photoshop e sem encenação

[1]













palavras para quê? é um artista holandês

[2]




















Jesus ama os gays

[3]



















É ver a original soundtrack de hoje. A primeira lição de qualquer educação sentimental é usar óculos de sol.

 
- não vai mais vinho para essa mesa -

Saiu há pouco tempo na comunicação social uma notícia. aparentemente um grupo brasileiro tinha declarado fidelidade ao Estado Islâmico. Estranhei logo: declarar fidelidade a alguém ou a alguma coisa no Verão? Bem, no Brasil é Inverno. Mas há outras coisas que uma pessoa estranha: ver um grupo brasileiro declarar fidelidade ao Estado Islâmico é o mesmo que ver judeu ortodoxo sem peiot e com uma crista punk. não diz a bota com a predigota. E não me levem a mal os leitores brasileiros do belogue, mas pensei como seria esse contacto telefónico entre os dois grupos. pode estar repleto de lugares comuns, mas é obviamente uma paródia. (ler com sotaque brasileiro)
Wilson, no Brasil - Aí Estádão! Tudo legau com ocês?
... -
Wilson - Tô áqui no meu moquifo, "vendo à bandá passá". Qui nada! tô brincando com ocês! Sábi quem tá aqui? Edjnilson, meu chápa lá do trabalho. Ele tá entrando nêssi negócio dji Estado Islâmico. Fala oi pró Estadão, Edji!
Ednilson - Oi aí prá ocês!
Wilson - É isso aí Estádão! Tô ligando prácertar as coisa.
... -
Wilson - Num tá ôvindo? Ó Edjnilson!
Ednilson - Oi!?
Wilson - Fála prá Sue Hellen baixá o som do funki. Irmã cáçula, cê sábi...
... -
Wilson - Sue Hellen dji burka? Tá máluco? Minino, não tem jeito! Sue Hellen nem sábi o que é shortjinho. pássa todo djia quáse "no osso" ensaiando funki...
... -
Wilson - Ah vá, isquéci Sue Hellen! Vâmo falá da conversão do povão. A gentji, eu e Edjnilson, tâmo pensando em fazê assim um negócio djiferentji, auternatjivo, como fála ágora... Fála aí qué qui ocê acha da gentji atacá o povão, colocando Mangueira em últjimo na votação da Sapucaí?
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Wilson - Légau! não tem probrema não. E siá gentji aumentá o támanho da caucinha da mulheráda?
Ednilson - Ah vai!... isso não!
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Wilson - E se a genjti não botá dôce pô beija-flô?
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Wilson - Tjirá à voiz do Chico?
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Wilson - Pô cára... Fálei por falá. Eu gosto do Chico. E o Edjnilson também. Fála aí Edji...
Ednilson - "A coisa aqui tá preta..."
Wilson - Vâmo falá também do djia.
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Wilson - Cáráca! num vai dá! Tem ensaio dá báteria dos unidos da Tijuca. Cês póde ir, vai ter chopinho gélado e um ranco gostôso.
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Wilson - cês num bébe? pô, párece cato!
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Wilson - Nêssi djia também num dá. Minha mina prometeu qui nêssi djia vô entrá pela porta dos fundos!!!!
Ednilson - Vai queimá à rosca da mina!!!! 
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Wilson - pô... também num tem jeito. nêssi djia joga o Vasco. Ó Estadão, vâmo adjiá pró ano qui vem? Aqui no Brasiu já tem Temer, tem Zika, Olimpíada, têvi Copa e não foi légau... Vâmo deixá pró ano?

sábado, julho 23, 2016

e um dia depois, o complicómetro foi ligado.